Evolução ou involução?
A velocidade é marca da atualidade, mas nem sempre ela leva as coisas e pessoas para frente.
Sons, cores e movimento: esse é o mundo midiático. Que saudades da era do rádio! Se bem que não vi, ou melhor, não ouvi e muito menos vivi. Mas devia ser ótimo ter que imaginar como eram essas pessoas, as donas das vozes maravilhosas. Os nomes davam algumas dicas, assim como as fotos nas revistas. Saber direitinho como eram seus jeitos e trejeitos, só no plano imaginário ou, no máximo, no cinema.
Acho que devia ser um grande exercício de percepção. Que ouvidos poderosos, que mente brilhantemente estimulada. Era o nascimento da era da mídia. Quanta esperança! Agora, em meio ao caos da pós-modernidade, percebo um certo estado de letargia humana diante da tecnologia. Não que eu tenha a pretensão ou a ousadia de descartá-la. Seria quase um sacrilégio fazer isso diante do culto à modernidade. Afinal, eu mesma preciso realizar inúmeras tarefas com a televisão, o computador e o aparelho de som ligados. É tudo ao mesmo tempo - só para não ouvir o barulho infernal dos carros, da máquina de lavar, da reforma do apartamento do vizinho.
De qualquer maneira, fiz um exercício. Liguei o rádio e surpresa! Consegui visualizar direitinho cada um que cantava: movimentos, trejeitos, roupas, estilo. Parecia que estava assistindo televisão. Pensei: "que maravilha de tecnologia. Acho que somos bem mais evoluídos".
Tentei imaginá-los com outras roupas, dançando diferente. Foi bem engraçado e triste. As referências que tenho hoje não me permitiram grandes variações. Acho que a tecnologia não é, afinal, tão maravilhosa assim. Estamos cada vez mais dependentes da visão e, por conseqüência, mais surdos.
"Estamos cada vez mais dependentes da visão e, por conseqüência, mais surdos"
Atualmente, todos compram DVD, MP4, download de vídeo-clipe no celular, pois apenas o som não basta. É preciso ver para poder ouvir melhor. Um verdadeiro culto à imagem. A notícia da moda é que garotas (ô... termo obsoleto) morrem de anorexia. E é bem capaz que até a publicação deste artigo, esse fato também já tenha morrido.
O consolo é que todo dia nasce uma novidade, e haja inovação. Assim, reciclar é uma questão de sobrevivência. E viva aos anos 70, 80, 90 e já chegamos ao novo (nem tão novo assim) milênio? Então, vamos voltar para os anos 50 e quem sabe aí, vou poder finalmente viver a era do rádio. Pena que na era da globalização, - se eu não estou enganada, esse termo também já está meio velhinho - o que provavelmente ecoará pelos quatro cantos do planeta será a música dos anos 70, 80, 90 com uma roupagem incrivelmente nova! E viva o acústico! Que sorte a nossa. Vamos vender muitos violinos, flautas e violões. E dá-lhe guitarras, baterias e baixos. As escolas de música lotadas de alunos querendo aprender a cantar para virarem pop stars, ops... Ídolos (do rock, quase esqueci)! Coitado do professor de cavaquinho. Até pouco tempo atrás era meu colega mais bem sucedido e agora sumiu. Por onde anda? É claro! Tocando chorinho da melhor qualidade. Pena que não vou ouvi-lo na nova era do rádio. Ou quem sabe ainda há uma esperança com a morte do jabá, para finalmente podermos viver a era da música de qualidade, que ainda sobrevive fora da mídia.
Longe dos olhos, mas perto do coração. E viva a música!
Leila Sugahara - professora de música e consultora pedagógica.