A história da guitarra distorcida no rock

Os anos de 1965-66 foram decisivos para as grandes mudanças que deram outra feição ao rock. Em 1965, a presença roqueira britânica nas paradas tanto americanas como do mundo inteiro era decisiva e marcante, apresentando inovações que marcaram o rock para sempre. Uma delas foi a presença da guitarra distorcida, caracterizando o rock pesado em todas as suas vertentes e manifestações.
Apesar dos Rolling Stones terem ficado com crédito da introdução da distorção em Satisfaction, a coisa não foi bem assim.
No primeiro semestre de 1965, a banda inglesa The Yardbirds resolveu diversificar em termos de estilo, saindo de uma linha voltada para o blues, para adentrar o pop rock, que por sinal estava com a bola de vez. Eric Clapton, que era o guitarrista solo da banda, discordou no ato e saiu do grupo de imediato, deixando uma lacuna que teve que ser preenchida às pressa e à altura da competência do então garotão de 20 anos de idade.
Pois bem. De saída os Yardbirds cogitaram o nome de Jimmy Page, futuro astro do Led Zeppelin, que então faturava muito bem como músico de estúdio, e de pronto recusou o convite, já que Page não queria se envolver com a estressante rotina da estrada roqueira de então, com a histeria dos fãs que vinha a reboque da beatlemania.
Clapton por sua vez, foi tão radical na sua saída, que sequer participou da gravação de estréia da banda no pop rock com a música For Your Love, que no Brasil se tornou Vivo Só, com Renato e seus Blue Caps. Já Page, por sua vez, indicou Jeff Beck, seu grande amigo, e também um gênio da guitarra, e de quebra ainda presenteou Beck com um pedal de distorção projetado pelo próprio Page.
Como os Yardbirds estavam com a gravação da canção Heart Full of Soul agendada, Beck elaborou um solo com inspiração oriental com duas versões, uma com sitar, a famosa cítara indiana, e outra com uma bela distorção. A versão distorcida prevaleceu, e a música ganhou expressão nas paradas de sucesso introduzindo a distorção como inovação pioneira, lado a lado com os Rolling Stones, já que Heart Full of Soul foi lançada quase paralela à famosa canção dos Stones.
Jeff Beck e os Yardbirds não ficaram por aí. Os solos de guitarra que antes ocupavam só uma linha de preenchimento nas músicas até então, passaram com os Yardbirds a ter uma dimensão mais ampla, e os shows da banda se tornaram uma explosão de rock pesado, com muito volume,peso e atitude, com a distorção lá, dando o seu bem explosivo e amplo recado, diga-se de passagem. Ao abrir os shows dos Rolling Stones, os Yardbirds tocavam quase três vezes mais alto do que os Stones,fazendo Mick Jagger se rebolar literalmente com sua turma para compensar o impacto da banda convidada para a abertura.
A guitarra distorcida ganhava assim expressão no rock como instrumento de possibilidades de improviso pra lá de ilimitadas.
A canção You're a Better Man Than I, por exemplo, também dos Yardbirds e também gravada na mesma época, mostra um solo de guitarra distorcido bem demorado para os padrões da época, reforçado por um contrabaixo e uma bateria bem marcantes, delineando assim uma nova vertente para o rock que se tornou padrão para bandas como Cream, Jimi Hendrix Experience, e o próprio Led Zeppelin que teve a sua raiz nos próprios Yardbirds, que vieram a ter Jimi Page como substituto de Jeff Beck, numa doce e oportuna virada do destino.
Os Yardbirds repetiram também o efeito com maestria na canção Shapes of Things, lançada também no mesmo período.
Para completar, Jimi Page e Jeff Beck, ainda chegaram a tocar juntos nos Yardbirds por algum tempo em 1966, Page entrou como baixista no grupo, mas sendo quem era, ficou decidido que os dois mestres deveriam dialogar entre si com seus magistrais solos de guitarra, com a emergente distorção presente, é claro, já que na época era uma grande novidade.
Com a saída de Beck, Page permaneceu como solista dos Yardbirds até junho de 1968, quando a banda encerrou suas atividades,que na última formação aboliu a guitarra base, permanecendo Jimmy Page na guitarra solo, Jimi McCarty na bateria Chris Dreja no baixo e Keith Relf no vocal. Meses após o fim do grupo, Page ainda inspirado no som de sua ex-banda fundou o Led Zeppelin que teve o nome inicial de... The New Yardbirds.
A partir daí, a distorção passou a caracterizar um rock com mais atitude, amplamente usada em trabalhos do Cream, com Eric Clapton, curiosamente, Jimi Hendrix Experience, The Troggs,já nos anos 60, traçando a seguir o rumo para o Heavy Metal com bandas como o Black Sabbath, que usou e abusou do recurso, Uriah Heap, Deep Purple e outros que abriram a cena dos anos 70.
Quanto aos Stones que chegaram a ganhar fama de introduzir o recurso no rock, bem, uma versão da história dá conta, que Keith Richards,guitarrista da banda e autor do solo famoso em Satisfaction, usou um pedal fuzz Gibson distorcedor ao gravar a música como mero demonstrativo para que posteriormente músicos de estúdio colocassem metais no dito solo ao invés daquela distorção envolvente, isso em maio de 1965. Como a gravação impressionou como algo inovador foi feita uma votação entre a banda, e ficou decidido que Satisfaction ficaria daquele jeito mesmo. Mesmo com relutância, talvez por achar o som meio estranho para a época, Richards aprovou o lançamento e ... bem, deu no que deu. Pra você ver como são as coisas.
Luiz Antônio Alencar- Eterno Big Brasa, músico e jornalista