Rock in Rio... Eu fui !!!
UM ADVOGADO APAIXONADO PELO ROCK

Em 4 de janeiro de 1984, salvo engano, colei grau em Direito pela Universidade de Fortaleza. Embora formar-se em Direito, a qualquer tempo, presente ou futuro, sempre vá representar no mínimo boas oportunidades profissionais, naquele tempo o Brasil não estava judicialiazado como está, além de que o país ainda engatinhando rumo à democracia, sendo assim, o direito alheio não era muito respeitado pelos poderosos, políticos ou econômicos, de conseqüência, o horizonte para os recém formados meio turvo, pois se referidos poderosos ainda brincam com as prerrogativas legais alheias, imagine isso há vinte e tantos anos.
Bem, formado estava, ao mundo tive de me lançar. Não sabia muito bem que rumo tomar, mas muitos anos após, com a ajuda do meu saudoso e eterno amigão RUY VIDAL, descobri que os astros se alinharam em um dia de fevereiro de 1984, e esse alinhamento me foi favorável. Não sei quem me avisou que após 13 anos, estaria sendo aberto concurso público para ASSISTENTE JURÍDICO/PROCURADOR AUTÁRQUICO FEDERAL, bem como não haveria naquele específico concurso a exigência da prática forense.
Provando que os astros realmente estavam alinhados a meu favor, o exame de ordem foi antecipado para o início de março, exigência prévia inafastável para a inscrição no concurso cujo prazo terminava no dia 30 daquele mesmo mês.
Não bastasse isso, sem muito tempo para estudar, submeti-me ao exame da OAB - que não era tão rigoroso como os atuais deve ser dito, e logrei aprovação. Para encurtar, freqüentei um cursinho preparatório para o concurso público para advogado do governo federal, e aliado às 8 ou 10 horas diárias de estudo, consegui aprovação, tendo tirado a 6ª nota no Ceará, isso com 23 anos de idade. Aprovado, restava-me apenas esperar ser chamado, podendo sem maiores preocupações dar-me ao luxo de viagens, festas, praia, festas, praia, festas, praias...
Ah, trabalhava um pouquinho também, pois com vergonha na cara, coisa que sempre tive, ficava acanhado em pedir dinheiro para meu pai. Tinha um rol de
O ANÚNCIO DO ROCK IN RIO
Em agosto ou setembro, assistindo TV, tomei um terrível susto, ao ver o Kadu Moliterno fazer propaganda de um tal ROCK IN RIO que iria acontecer. Não sabia quais as atrações, data, local do evento, hora, custo dos ingressos etc. etc. etc.
Não sabia nada, mas simplesmente disse pra mim mesmo em voz alta, que foi ouvida por minha mãe que ao meu lado estava - EU VOU!!!!!!!!!!!!!!
A expectativa foi grande, pois nada de serem divulgadas as atrações, e tome Kadu Moliterno propagandeando que a “cidade do rock” estava sendo construída, que seria o Woodstock dos trópicos, que o que de melhor no cenário mundial estaria presente, que................, e nada de serem anunciadas as atrações e lançados os ingressos para os shows.
Esse martírio durou até novembro, quando finalmente as atrações foram anunciadas, bem como postos à venda os ingressos, adquiríveis no extinto Banco Nacional.
Do dia que disse EU VOU até o dia da compra dos ingressos para os 10 dias de shows, virei, como diria o antigo personagem Gastão do Chico Anísio, uma pessoa “controlada”. Tranquilamente eu podia pular numa piscina com um Sonrisal na mão que ele não entraria em efervescência.
Comprados os ingressos, continuei “controlado” para garantir a ida e volta sem precisar suporte financeiro direto paterno, bem como foi iniciado o planejamento estratégico da ida, que seria de carro, uma D10 Cabine Simples do meu pai.
Iniciada foi também a busca de companheiros para e empreitada. Não foi muito difícil arregimentar o “bando”. Foi formada uma gang de 6 elementos – 4 homens e 2 mulheres, uma delas, Suely Ramone, minha amiga há apenas 28 anos.
A VIAGEM
Fortaleza/Rio de Janeiro, quase 3.000km numa D10 Cabine Simples, com 6 pessoas. Como fazer?
Foi comprado numa sucata um banco traseiro de um Opala, e jogado na caçamba da caminhonete, acrescido de um super confortável colchonete com no máximo 5cm de grossura, a serem alternados pelos que lá estivessem.
Duas coisas lembro bem antes da partida. A primeira, o pedido do meu irmão mais velho pra que não confiasse a direção a nenhum dos integrantes da comitiva, pedido que ficou “martelando” na minha cabeça desde que foi feito, e obedientemente seguido. Ou seja, dirigi sozinho, ida e volta, incluindo os trajetos na cidade do Rio de Janeiro, mais de 7.000Km.
A segunda coisa que lembro bem antes da partida foi um pedido que fiz à comitiva, alertando que aquele carro poderia ser mal visto pela Polícia Rodoviária, solicitando a dois canabistas que estavam lá que evitassem levar qualquer lembrança da dita erva, pedido que me foi respondido da seguinte forma: “limpeza Steve, pode ficar tranqüilo” (Steve é um apelido que tenho da época do Colégio Santo Inácio)
O primeiro baseado que eles acenderam foi ainda na saída de Fortaleza quando da primeira parada para tirar água do joelho, esquadrilha da fumaça que acompanhou o carro até a chegada ao RJ.
Esses caras fumaram tanta diamba que mesmo o carro sendo cabine simples, vez por outra a indisfarçável “maresia” chegava ao cubículo do motorista. Quem quiser duvidar que duvide, mas pela alma do meu pai eu juro que estou dizendo a verdade.
A viagem de ida foi uma comédia, sendo o fato mais pitoresco o de termos dormido uma noite na cidade de Santa Bárbara em frente à uma DP. Eu, na condição de dono do carro, dormi confortavelmente estirado no banco da frente do carro. Outro integrante, no banco traseiro d’uma VW Brasília de um larápio que havia sido preso. Os demais na caçamba da D10, e as meninas passaram a noite bebendo cachaça do Ceará com o delegado Plantonista.
A CHEGADA AO RIO DE JANEIRO
Chegando ao Rio, o coração não parava de bater forte. Fui ao Rock in Rio pra ver o AC/DC.

Elba Ramalho. Goshhhhhhhhhhhhhhh
Tinha todo esse pessoal, mas eu fui ao Rock in Rio para ver o AC/DC. Tinha me apaixonado pelo grupo desde a primeira vez que ouvi o LP Back in Black.
Lembro que antes de ouvir qualquer coisa do AC/DC, perguntei a um amigo meu chamado Ernesto Gadelha, fã incondicional dos Stones, se ele conhecia a banda, e a resposta dele foi a seguinte: "ainda estão aprendendo a tocar".
Acho que ele exagerou. A zorra era grande em tudo que se possa pensar.
Fora da cidade do Rock, centenas de milhares de motos, carros, ônibus, skates, patinetes, pranchas de surf, caminhões, asas deltas, dirigíveis, e tudo o mais que servisse como meio de transporte, além de também milhares de pessoas lutando para passar nas não mais de 20 catracas de entrada.
Dentro da cidade do Rock, uma multidão para comprar sanduíche do Bob’s, usar os higienizados banheiros, orelhões, postos médicos, etc.
No dia do show do AC/DC, não fui o primeiro a chegar, mas postei-me a não mais de

Hora do show, tensão e ansiedade grandes, as luzes se apagam, caindo o palco num breu total. Ouve-se, no entanto um solo de guitarra. Guitarra de rock. Guitarra elétrica de verdade. Guitarra que ajudou a mudar o mundo. Após uns 15 segundos de solo sem qualquer iluminação um spot super potente é direcionado para o lado esquerdo do palco, e a uns
As 250.000 mil pessoas entraram
Passados uns 10 segundos, o solo de guitarra tem continuidade, quando o spot é aberto novamente, lançando seu canhão de luz agora no lado direito do palco, e mais uma vez a uns
Desligado o canhão de luz pela segunda vez, agora apenas uns 5 segundos após, seu facho é direcionado para o centro do palco, onde em uma altura menor, talvez uns
Escrevendo essas letras me arrepio como se a coisa estivesse acontecendo.
Acho que foram 3 músicas seguidas até que a banda se dirigisse ao público, estupefatos com a fantástica multidão. Nessa hora ouvi de um outro garoto - nessa época eu também era garoto, a seguinte frase: “ eu já posso morrer”. Não concordo com ele, mas entendo perfeitamente a empolgação da frase.
O resto foi quase só alegria.
O Queen, de quem não sou super fã, foi maravilhoso. O Iron Maiden fez uns caras cabeludos de São Paulo, todos vestidos de preto, que me fez pensar estar num velório, entrar
As Go Go’s, tesudinhas da Califónia, deram seu recadinho.
Nina Hagen, com um boneco pendurado entre as pernas que parecia uma piroca, provou que não tinha todos os parafusos na cabeça. (anos depois casou-se com um rapaz portador da síndrome de Down). Rod Stewart, chutou bolas gigantes para o público.
Realmente quase tudo foi felicidade.
Teve muita chuva, lama, um cheiro que ainda hoje lembro bem, resultado da mistura da lama com cerveja, com urina, com resto de comida, com o escambau.
Teve as longas horas em pé, em regra mais de 10 horas, as voltas de ônibus até o centro da cidade para de lá pegar a barca e ir para Niterói onde estava hospedado na casa da minha querida tia Izaura, verdadeiro hotel 1000 estrelas, tia que me aturou por 15 dias. (aturar um elemento em sua casa por 15 dias é phoda).
Como diz meu super querido Tio Pedro Ivo, vascaíno e grande gozador, “a elegria da chegada do hóspede é grande, mas o prazer da saída é INCOMPARÁVEL”. srsrsrsrsrsrsrsrs
Teve ônibus não sabendo o caminho de volta. Teve uns vagabundinhos típicos do RJ, magrinhos, só de bermuda, cabeça quase raspada bradando no ônibus o grito de guerra “é sacanagem, é sacanagem, é sacanagem, não vou pagar passagem”, e ao final saindo pela porta de trás sem pagar a passagem mesmo. Teve medo de assalto. Tiveram outras coisas.
Destaco, no entanto, como a coisa mais terrível de tudo, ter de ouvir por mais de 2 horas a gasguita da Elba Ramalho cantar “eu quero um banho de cheiro, eu quero um banho de chuva.........” E outras coisas insuportáveis, e ao final, com aquela cabeleira que mais parece uma maçaroca de pelos, gritar que “O FORRÓ É O ROCK DO FUTURO”.
Foi demais pra mim. Como disse, fui ao Rock in Rio para ver AC/CD, mas na verdade eu olhei o AC/DC. O grupo que eu realmente vi foi o Scorpions, mas essa eu deixo pra contar em outro texto.
A volta foi sensacional. Eram 6 amigos. Somente eu voltei falando com todos. Os demais todos brigaram entre si, mas felizmente após uns poucos dias em casa tudo voltou ao normal.
Finalizando, quando falam em Rock in Rio, eu sempre digo com a maior moral do mundo: EU FUI!!!!!!!!!!!!!!!!
Antonio Estevam