É de pequenino que se combate o tabagismo
Pais e escolas devem alertar desde cedo as crianças sobre os malefícios do fumo.
O tabagismo é uma doença pediátrica. Assustou-se com essa afirmação? Pois é a mais pura verdade. Mais do que simplesmente um vício, o tabagismo é hoje classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma enfermidade relacionada à infância já que a idade média de iniciação no ato de fumar acontece por volta dos 15 anos. As estatísticas mostram que 90% dos fumantes começam a ingerir tabaco antes dos 19 anos! Segundo dados da OMS, aproximadamente seis milhões de pessoas morrem anualmente em consequência de problemas desaúde decorrentes do fumo.

"Devemos trabalhar muito para evitar que adolescentes experimentem ou usem cigarros com frequência, pois é nessa fase que a dependência costuma se instalar. Quando o adolescente começa a fumar não consegue perceber o quanto está colocando a sua saúde em risco, justamente porque as doenças decorrentes do tabagismo só se apresentarão mais tarde em suas vidas", afirma João Mauricio Castaldelli Maia, professor da Faculdade de Medicina do ABC e Presidente do Centro de Estudos em Saúde Mental do ABC.
As estatísticas mais recentes da OMS mostram que em 2010 o tabagismo atingia 18% da população brasileira, o equivalente a 25,5 milhões de pessoas. A organização apontou que o país vem fazendo esforços para diminuir esse número e projeta que em
Embora a informação conste hoje de todas as embalagens de cigarro, nunca é demais lembrar que a fumaça do cigarro contém mais de 4,7 mil substâncias tóxicas. Entre elas está o alcatrão, comprovadamente cancerígeno. Além disso, o monóxido de carbono da fumaça dificulta a oxigenação do sangue e pode levar a problemas como a aterosclerose (caracterizada pela obstrução dos vasos sanguíneos). Outra substância presente é a nicotina, droga que causa dependência, acelerando a frequência cardíaca e colaborando para o desenvolvimento da hipertensão.
Veja a seguir as explicações dos especialistas sobre o tabagismo e como evitar que crianças e adolescentes comecem a fumar.
1. O que é tabagismo?
Se você acha que o tabagismo se limita ao ato de fumar cigarros, está enganado. "Tabagismo é o ato de consumir qualquer produto que contenha tabaco. Entre eles estão cigarros, charutos, cachimbos, fumo de rolo, rapé e narguilé", explica o pneumologista do Hospital 9 de julho Alexandre Kawassaki. Todos eles contêm nicotina, substância que pode levar à dependência. "A dependência de nicotina é uma doença que está incluída na classificação internacional das doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS)", diz Joao Mauricio Castaldelli Maia, Presidente do Centro de Estudos em Saúde Mental do ABC.
"Segundo a OMS, tabagista é aquela pessoa que fumou ao menos 100 vezes durante a vida e que continua fumando", afirma Kawassaki. Estudos apontam que o tabagismo tem relação com a ocorrência de mais de 50 doenças. As estatísticas mostram que 90% das mortes por câncer de pulmão são provocadas pelo ato de fumar. No caso das mortes por bronquite e enfisema esse número é de 85%. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA) o tabaco tem relação com a impotência sexual e infertilidade masculina.
2. Quais os riscos do tabagismo para gestantes e crianças?
Fumar na gravidez é prejudicial tanto para a mãe quanto para o bebê, podendo provocar abortos espontâneos e nascimentos prematuros. Mães tabagistas também têm mais risco de dar à luz bebês com baixo peso ou de sofrer complicações com a placenta e sangramentos. Quando a mãe fuma, os batimentos cardíacos do feto se aceleram. Depois do nascimento, mesmo que a mãe não fume perto do bebê a nicotina é ingerida pela criança por meio da amamentação. Isso pode levar a intoxicações que têm como consequência agitação, vômitos, diarreia e taquicardia.
Crianças que convivem com fumantes têm mais probabilidade de desenvolver problemas respiratórios como bronquite, pneumonia e bronquiolite, além de ficarem mais vulneráveis a infecções respiratórias. "O fumo passivo oferece tantos riscos quanto o fumo ativo. Por isso os pais devem ser mais responsáveis ao escolher fazer uso dessa droga. Educar para a saúde física, mental e emocional é fundamental", afirma a Educadora, Psicopedagoga e Neuropsicóloga Adriana Fóz, Coordenadora do Projeto Cuca Legal-Psiquiatria da UNIFESP.
3. Por que os adolescentes começam a fumar?
O exemplo nada bom dado pelos pais ou pelos colegas é um dos grandes motivos que leva uma criança ou adolescente a se tornar tabagista. A ilusão de que se tornará mais aceito por seu grupo também é uma das razões para experimentar o tabaco. Muitas vezes visto como um "ato proibido", o fumo pode despertar no adolescente a fantasia de se tornar um "transgressor" e de se afirmar como "adulto" no seu grupo. "Muitas vezes o adolescente quer se mostrar para os amigos, quer ter status diferente e se afirmar como mais aberto a experiências", diz o pneumologista do Hospital 9 de Julho Alexandre Kawassaki.
4. O adolescente é mais suscetível ao vício?
O cérebro do adolescente é mais plástico que o dos adultos e nesta fase etária está passando por muitas mudanças e transformações cerebrais. "Por exemplo, o Sistema de Recompensas do cérebro nesta fase da adolescência tem diminuído a circulação de neurotransmissores que levam o prazer e satisfação. Com isto ele é mais suscetível a buscar o prazer de forma mais imediata. E é aí que entra o perigo do cigarro e de outras drogas", diz a Educadora, Psicopedagoga e Neuropsicóloga Adriana Fóz.
Ciente dessa facilidade de "conquistar" o público jovem, a indústria do cigarro já lançou mão de muitos artifícios para aumentar o número de consumidores do produto. "Uma prova disso são os cigarros com sabores lançados no passado, como os cigarros de cravo ou de menta, que hoje são proibidos", diz Kawassaki. Ele também alerta para a moda atual de trocar os cigarros tradicionais pelos cigarros eletrônicos. "Muita gente quer parar de fumar usa cigarros eletrônicos achando que isso vai diminuir a necessidade de cigarros comuns. Não há estudos apontando para isso e o que tem se apurado é exatamente o oposto. Além disso, muitos jovens tem experimentado cigarro eletrônico e depois acabam pulando para o cigarro comum", diz o médico.
5. É preciso combater o tabagismo nas escolas?
Sim. Além de evitar a entrada do tabagismo em casa, é preciso combatê-lo também nas escolas. "As escolas precisam colaborar para o combate ao tabagismo se tornando locais livres do cigarro. Ou seja, proibindo o uso de cigarro em todos os locais da instituição de ensino. E isso deve valer para todos, incluindo adultos. Além disso, é importante incluir palestras de prevenção ao consumo de tabaco para os alunos para que os mesmo saibam os malefícios do uso de cigarro a médio e longo prazo", afirma João Mauricio Castaldelli Maia, Presidente do Centro de Estudos em Saúde Mental do ABC. Ele acrescenta que até mesmo no ato de "experimentar" tabaco existe risco. "Uma em cada três pessoas que experimentam o tabaco se tornam dependentes dele posteriormente", diz Maia.
6. Como tratar o tabagismo?
A doença do tabagismo deve ser combatida com uma abordagem multidisciplinar, segundo Joao Mauricio Castaldelli Maia, Presidente do Centro de Estudos em Saúde Mental do ABC. "Para que uma pessoa deixe o tabaco o ideal é combinar tratamento com psicoterapia e tratamento farmacológico. A psicoterapia deve ser de base cognitivo-comportamental e motivacional, podendo ser individual ou em grupo. Já os medicamentos utilizados no tratamento em geral incluem a vareniclina, a bupropiona e a terapia de reposição de nicotina. No caso de adolescentes tendemos a utilizar só a psicoterapia", afirma ele.
7. É proibido vender tabaco a menores de 18 anos?
Sim. A organização não governamental Aliança Contra o Tabaco (ACT) alerta que é proibido vender cigarros a menores de 18 anos conforme estipula a lei 9294/96. A mesma lei estabelece que "vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, de qualquer forma, a criança ou a adolescente, bebida alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica" é crime passível de pena de detenção de dois a quatro anos, e multa.
De acordo a advogada Adriana Carvalho, da ACT, isso significa que os pais podem ser responsabilizados se fornecerem, servirem, ministrarem ou entregarem à criança ou a adolescente, bebida alcoólica ou outros produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica, como o cigarro. Ainda segundo a advogada, porém, o fato de dar dinheiro e pedir para a criança comprar cigarro não gera responsabilidade criminal para os pais, mas sim para quem vende. A estes são aplicadas as regras do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei federal 9294/96.
8. O que diz a lei sobre onde se pode e não se pode fumar?
Segundo a lei 9294/96 "é proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em recinto coletivo fechado, privado ou público". Isso inclui escolas, condomínios e restaurantes, entre outros. Mesmo se esses locais estiverem só parcialmente fechados por parede, divisória, teto, toldo ou qualquer outro impedimento, o fumo fica proibido. Cigarros eletrônicos também estão vetados nessas situações.
A lei, porém, não impede o uso de tabaco em vias públicas ou em casa. Porém, mesmo que não haja lei proibindo, é importante que os pais tenham consciência de não fumar perto das crianças e adolescentes.
9. O que dizem as pesquisas sobre consumo de cigarro nas escolas?
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) , publicada em 2012 e realizada com estudantes do 9º ano do ensino fundamental mostraram que 19,6% dos entrevistados já haviam experimentado fumar. A maior frequência de experimentação foi registrada na Região Sul (28,6%) e a menor, na Região Nordeste (14,9%). Em escolas públicas a experimentação ficou em 20,8% e nas privadas, 13,8%.
Ainda segundo a pesquisa 29,8% dos estudantes informaram que pelo menos um dos responsáveis no lar era fumante. Nas escolas públicas 32,2% declararam pais ou responsáveis fumantes e na rede privada, 18,4%.
Fonte – Eduar pra crescer