Narcélio Limaverde - A Fortaleza
da era do rádio
Ao lançar o livro “Fortaleza Antiga”, pela Editora da Assembléia Legislativa, o radialista Narcélio Limaverde traçou todo um roteiro de resgate de uma cidade ainda bucólica e embalada pelos sonhos e devaneios que foram filhos naturais das ondas do rádio nos anos inocentes de décadas atrás.
Ao longo de mais de quarenta crônicas, Narcélio Limaverde conduz o leitor ao uma autêntica excursão pela Fortaleza dos anos 50 e início da década de 60.
Trata-se de uma imersão em uma realidade urbana de uma cidade tranquila e ainda provinciana,na qual se podia caminhar serenamente pelas ruas nas madrugadas silenciosas, tendo como trilha sonora um ou outro violão em serenata.
Como o Ceará ainda não dispunha de televisão, o rádio reinava soberano na sala de estar das famílias cearenses, divertindo, informando e formatando opiniões e normas de comportamento em uma metrópole ainda conservadora e com ares de cidade interiorana, tendo as suas pracinhas como obrigatório ponto de encontro,a tradicional e imponente Praça do Ferreira inclusive. Depoimentos de testemunhas desses tempos mais serenos, dão conta de que era comum se sair das últimas sessões dos inúmeros cinemas que pontilhavam o centro de Fortaleza, para se conversar sentado nos bancos da Praça do Ferreira até altas horas da noite.
Quem queria e morava pela área central da cidade tomava o rumo de casa, os mais boêmios davam uma esticada pelas boates e casas noturnas do centro com nomes sugestivos e gravados na memória nostálgica dos protagonistas daqueles tempos dourados- Fascinação, Oitenta, Senadozão, Gaguinha, muitas delas com o requinte de música ao vivo.
Taxi não havia na época, o que se dispunha era dos chamados carros de praça dos Postos Ceará, Vitória, Pará, Mazine, todo no centro com carros Chevrolet, Simca, Ford, Perfect, marcas de veículos que derraparam nas curvas do tempo.
O cinemas, as salas de projeção eram muitas, cada bairro de Fortaleza, tinha lá o seu cineminha com nomes que ficaram registrados nas telonas da memória dos cinéfilos nostálgicos daquele tempo: Cine Moderno, Majestic, Samburá, Diogo, Jangada, Rex, Art, Luz, entre outros e até o Cine Familiar no bairro de Otávio Bonfim, famoso pela presença do Frei Teodoro que colocava a mão na frente do projetor, quando alguma cena de amor mais picante era projetada, aos gritos da platéia: “ Tira a mão, tira a mão.”
Nos anos 50, Fortaleza dispunha de cinco emissoras de rádio: Ceará Rádio Clube, Rádio Iracema de Fortaleza, Rádio Uirapuru, Rádio Verdes Mares e Rádio Dragão do Mar de Fortaleza, que ocupavam na época o espaço hoje ocupado pela televisão, já que a grade de programação radiofônica foi praticamente transposta para a TV, em termos de conteúdo.
Além dos noticiários, transmissões esportivas e programas de auditório, as emissoras de rádio produziam também as radionovelas, nos mesmos moldes das produções televisivas similares. O mais peculiar nessas novelas, é que elas eram apresentadas ao vivo, e contavam com ampla audiência por parte do público feminino, e cada emissora de Fortaleza tinha o seu elenco de radioteatro, com locutores de outros setores por vezes exercendo a função de radioator. O escritor e jornalista Eduardo Campos, redigiu uma dessas radionovelas denominada” Aos pés do tirano”, que foi ar pela Ceará Rádio Clube, cujo elenco de radioteatro era dirigido pelo radialista João Ramos.
Os programas de auditório no rádio eram outro grande acontecimento em uma cidade ainda sem muitas opções de lazer, com diversas atrações inclusive do Sul do país e internacionais, devidamente acompanhas por orquestras da própria emissora. Nomes como Irapuan Lima, Augusto Borges, Armando Vasconcelos e José Lisboa marcaram época no comando de tais programas como nomes sugestivos como Fim de Semana na Taba, Festa na Caiçara e Divertimentos em Sequencia, este último transmitido diretamente do Theatro José de Alencar.
O auditório da Rádio Iracema por exemplo, ficava no terraço de um prédio na Praça José de Alencar, no qual as pessoas assistiam às apresentações sentadas em mesa tomando refrigerante, uísque, cerveja e outros aperitivos. Nomes de atrações e artistas como Keyla Vidigal, uma cantora que causava frenesí, Nozinho Silva e seu acordeon e Trio Jangadeiro com seus boleros calientes foram nomes que marcaram presença no cenário radiofônico e musical da época.
O LOCUTOR DOS BROTINHOS
Era assim que o radialista Narcélio Limaverde era denominado nos primórdios de sua carreira como locutor ou “ speaker” como se dizia na época, isso na Ceará Rádio Clube, onde começou sua carreira radiofônica em 1954.
Segundo Narcélio, o assédio de suas fãs era tamanho e o volume de telefonemas idem, a ponto do profissional ter de recusar algumas propostas e investidas de ouvintes mais ardorosas, já que ele era considerado um autêntico galã do rádio cearense.
Em uma época onde havia cartões estilizados para o rapaz fazer proposta de namoro a um moça, ser assediado dessa maneira já era muita coisa. Tais cartões segundo o livro “ Fortaleza Antiga” obedeciam a um código- se a moça dobrasse o cartão em uma direção, o namoro estava aceito, em outra, recusado, devolver do jeito que recebeu, sinalizava uma esperança.
O livro se reporta também às quermesses, que para quem não sabe o que é, eram uma espécie de feirinha como barracas vendendo artigos, jogos e brinquedos em uma espécie de parque de diversões, um autofalante, a famosa irradiadora transmitindo sucessos musicais e recados românticos de jovens apaixonados, e muita paquera nos locais onde eram realizadas, geralmente as pracinhas de bairro. Eram geralmente promovidas pelas paróquias dos bairros, com leilões que eram também uma grande atração do evento.
VENTANIA SEM PUDOR
Umas das reminiscências marcantes no livro de Narcélio Limaverde, é a Esquina do Pecado, entre as ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, onde os jovens se reuniam para olhar o vento levantar as saias das alunas dos colégios que passavam no local.
Em uma Praça do Ferreira movimentada e contando com o Abrigo CentraL, uma espécie de shopping coberto demolido em meados da década de
O FUTURO DA RÁDIO
Tendo trabalhado em vários rádios AM da cidade, e presente na fundação da primeira emissora de televisão do Ceará, a TV Ceará Canal 2 em 1960, Narcélio Limaverde se mostra preocupado com futuro do rádio, na medida em que várias estações arrendam seus espaços radiofônicos para que o profissional possa nela trabalhar, apesar de amar o rádio como o veículo de sua paixão.
Tendo começado como locutor, Narcélio passou a noticiarista e redator de notícias, sempre adotando uma linguagem acessível ao grande público, adequada à própria mídia radiofônica em si. Suas atuações tanto na TV Ceará Canal 2, como TV Uirapuru, bem como seu desempenho no seu já lendário Programa Narcélio Limaverde, transmitido da carroceria de um caminhão que percorria os bairros em uma unidade móvel da Rádio Verdes Mares AM, o tornaram uma figura recorrente, marcante e obrigatória quando o assunto é rádio cearense.
Eleito deputado estadual pelo PMDB, em 1986, Narcélio Limaverde é também autor do livro “ Senhoras e Senhores,” uma crônica do rádio cearense em capítulos e casos folclóricos e memoráveis. Hoje em dia, Narcélio apresenta um programa de segunda a sexta-feira, na rádio FM Assembléia 96,7 no qual mantém radiofonicamente todo o seu carinho pela Fortaleza que viu crescer pelas ondas do rádio.
Luiz Antônio Alencar, Músico, Jornalista e Eterno Big Brasa
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