O Grupo Sambatuque,

de Messejana

 

 

O Grupo Sambatuque - Tínhamos o “samba nas veias”, e fomos efetivamente o primeiro grupo de samba/pagode de Messejana.

 

O começo – Nos anos 80, uma turma de amigos se reunia toda noite pra bater papo de toda natureza, e também para falar de música uma vez que faziam parte de uma “charanga” denominada XantSamba, que animava os jogos de futebol (no Salgado da Gama e no Murilão), nos pic-nic´s e coisas do gênero.

 

Aí, nós tivemos a idéia de colocar harmonia na “coisa”, pois até então era apenas percussão. O grande problema era educar a moçada “pra pegar leve” nos instrumentos, pois tínhamos que ouvir o cavaquinho que até então era apenas acústico.

 

A decisão

 

Como todo músico que se preza, começamos a levar a coisa mais a sério, teríamos que ter bons instrumentos, ouvir bons discos e deixar o “talento” e a força de vontade fluir para fazer a coisa acontecer, e isso deu muito certo. Começamos a freqüentar as rodas de samba em outros bairros para ouvir e aprender a ginga do sambista nato. Foi uma época de estudo e aprendizado. Nesse momento tínhamos que decidir quem iria fazer parte realmente do grupo de samba, já que não tinha como manter a “charanga”, pois era muita gente. Enfim fizemos isso e bem.

 

O repertório

 

Tínhamos muito cuidado em preservar o bom samba, o samba de raiz, o partido-alto, portanto no nosso repertório tinha Donga, Assis Valente, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Ary Barroso, Demônios da Garoa, Ataulfo Alves, Cartola (grande poeta), Nelson Cavaquinho (esse é imortal), passando por João Nogueira, Beth Carvalho, Clara Nunes, Noite Ilustrada, Alcione, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Grupo Fundo de Quintal (a gente tocava/cantava praticamente tudo desse grupo fenomenal), Almir Guineto, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Jorge Aragão, Grupo Raça, Grupo Razão Brasileira, enfim tocávamos apenas “o filé” que é o samba de raiz desse nosso ritmo.

 

Agenda

 

Todo final de semana tinha samba, éramos convidados pra todo tipo de evento, as tardes de domingos eram “sagradas”, tudo acaba em samba.

 

O grupo

 

Tínhamos uma formação 100% efetiva, mas tivemos também muitas variações: Rogério Delmiro (cavaco), Marquinhos (cavaco), Hélio (violão 6 cordas), Gilvan (pandeiro/voz), Kiko (repique), Humberto (surdo), Evandro (timba) e o Rogério Carioca na percussão geral.

 

As vezes o César Urso (banjo), vinha completar esse time, enfim era a “tropa de elite” que fazia “qualquer quintal” tremer. Tínhamos um vocal principal que era o Renato, este sabia muito de samba, segurava uma “levada” por muito tempo, sem deixar “a peteca cair”, também tínhamos o privilegio de em muitas nas nossas apresentações termos a participação da Telma Barbosa no vocal.

 

Nosso maestro

 

Gilberto Carvalho (Bebeto), irmão do Gilvan, foi uma das pessoas que mais deu força ao grupo, apesar de ter instrumentos em casa e gostar de samba, nunca se dedicou a tocar nada, mas arranhava um pouco de tudo. Os quintais das casas desses irmãos se comunicavam através de um portão, então o Bebeto ficava lá ouvindo os ensaios, quando algo não tava bem, ele atravessa o portão e vinha logo na bronca: “pára, ta tudo errado, vamos ouvir a música de novo, até ficar legal”, eu agradeço em nome do grupo a força que o Bebeto nos deu, pois foi no quintal da casa dele que fizemos as rodas de samba mais inspiradas.

 

Não poderia ficar de fora – temos um amigo que é eletricista, o Ricardo, esse acompanhava o grupo, consertava da caixa de som aos microfones, e sem cobrar nada, pelo simples fato de gostar de samba.

 

Um tarde não tão alegre

 

Acho que foi a única – era um domingo daqueles, sol de praia, no bar Estúpido Cupido, muita cerveja e o samba rolando solto, de repente o teto do estabelecimento veio abaixo, saiu muita gente ferida inclusive alguns componentes do nosso grupo, pois o telhado era de amianto (infelizmente esse dia não pode ser riscado da nossa história).

 

O show Despertar

 

Já havíamos participado algumas vezes, no ano de 1988 inscrevemos um samba chamado CORRUPÇÃO, não deu outra, fomos 1º lugar, e no júri tinha nada mais que a Nininha (Ana Maria Porto) de um conhecimento musical invejável. Esse nosso samba falava mesmo naquela época das “picaretagens” dos nossos políticos. Foi uma noite brilhante.

 

Final de semana

 

Tudo era festa, a nossa única intenção era fazer as pessoas cantarem, se sentirem felizes, era também ver o “quintal” inteiro cantando o samba conosco, isso sim era gratificante, até porque naquela época ainda era tempo de paz, a violência não imperava como nos dias de hoje.

 

A parada

 

Foram aparecendo convites de tudo que é modelo, então tivemos que rever a postura do grupo, tivemos que levar a sério os ensaios, intensificá-los e principalmente o horário dos compromissos.

Porém nossas atividades pessoais/profissionais não tinham com ser conciliadas, então foi o primeiro aviso que a coisa não ia caminhar como deveria. Ainda tentamos, fizemos inúmeras apresentações, em todos os lugares da nossa bela Fortal, muitas das vezes com o “time incompleto”. Foi necessário tomarmos a decisão de parar com os compromissos, apenas passamos a nos reunir na casa dos componentes do grupo nos finais de semana, para cantar samba. Foi o nosso grande erro.

 

Quem sabe um dia, ou a qualquer momento – como todos os componentes se conhecem desde a infância, até hoje perdura a amizade entre todos e, isso é muito legal, muito gratificante. Estamos conversando com alguns e existe sim a possibilidade de um retorno, mesmo que remota mas existe, afinal a Alcione sempre nos lembra: “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar”  .

 

Com todo respeito aos outros ritmos, porém:

 

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça e doente do pé (e do resto do corpo)”

 

A gente brincava de tocar e cantar, apenas isso...

Tudo acabava em samba, ainda bem.......

 

 

Rogério Delmiro – filósofo, músico, professor e profissional de TI.





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