ONTEM
Há algumas décadas atrás, se podia passear livremente pelas ruas de Messejana, qualquer hora do dia ou da noite, se percorrer a área urbana da Messejana inteira, despreocupadamente, tipo, se sair de uma festa no Balneário Clube de Messejana, ou de uma tertúlia em casa de um amigo, e se caminhar tranqüilamente para casa, mesmo de madrugada.
Quem morava nas imediações tipo Jangurussu, ou Barroso, ia em grupos conversando tranqüilamente, perturbado apenas pelos latidos de algum cão vira lata guardando algum casebre de beira de estrada.
Um ex-morador do Barroso comentou uma vez que só tinha mesmo era medo de alma, isso quando ia só para casa, já que assalto só se via mesmo na televisão, no cinema ou nas revistas em quadrinhos.
Era até gostoso se caminhar à noite por Messejana, sentar na Praça da Matriz para um bate-papo após uma festa, ou então ficar no patamar da igreja até de madrugada jogando conversa fora, tocando violão ou tomando umas e outros. O messejanense era dono do próprio espaço em que morava.
HOJE
Nos dias turbulentos de hoje, os cidadãos de Messejana se refugiam, dentro das próprias casas, estressados pela violência nas ruas, que acabam sendo território livre dos marginais e dos seres da noite.
Neurotizado e estressado pela cultura de violência na TV, que ele acaba consumindo como lazer após um dia de trabalho, o novo messejanense, é refém do medo da própria Messejana, já que ninguém tem coragem de sair de casa à noite, ficando os mangueirais e a brisa como lembranças de um passado mais acolhedor e tranqüilo.
Os locais ermos, arborizados e bucólicos que eram recantos de lazer, hoje são evitados como áreas perigosas. Onde se buscava a vida, hoje se teme a morte, onde se encontrava a poesia, hoje se marca um encontro com o medo. Antes o sonho, hoje a barbárie.
As próprias festas, e atividades recreativas já trazem embutidas o risco da violência injustificada, sempre à espreita, por conta de uma sociedade que se tornou predatória, por conta da vulgarização da brutalidade, da glamourização da selvageria.
Hoje se cruza com alguém na rua em hora erma medo, os cidadãos mais pobres e pardos são discriminados e confundidos humilhantemente com marginais. Antes o encontro com outro era motivo para uma saudação cordial, um papo ameno, uma brincadeira.
Hoje é um pretexto para se mudar de calçada. A Messejana das madrugadas, antes o reino encantado dos boêmios e poetas, cuja trilha sonora era os acordes do Big Brasa, hoje é o domínio absoluto dos sombrios seres da noite, e a invés da música indutora do devaneio, se ouve tiros esparsos e cantadas de pneus. Queremos a poesia das noites de volta, ela nos faz eternos.
Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico e jornalista.