Caçadores de ventos em Lagoinha
A força dos ventos na costa cearense é tão grande que levou para longe a fama do
Estado como um dos melhores destinos para a prática do kitesurf no Brasil. Há cerca de três anos vem se intensificando nas praias a quantidade de turistas que atravessam oceanos para velejar aqui. Detalhe: a viagem é exclusivamente para praticar o esporte
A maioria dos turistas que chegam nem pernoita na capital cearense. Outros chegam às praias à noite e nem esperam o dia amanhecer para cair na água. Motivos não faltam: vento constante o ano inteiro e mais forte entre junho e novembro, temperatura do mar que nem de longe lembra as gélidas águas européias, hospitalidade já peculiar do povo cearense e a existência de pousadas e roteiros próprios para quem quer velejar.
A mais recente adaptação destas viagens é o downwind, pacote que inclui estadia, receptivo, traslado e serviço personalizado para o turista descer o mar na direção leste-oeste, velejando, mas sendo acompanhado por profissionais em veículos que seguem pela areia da praia.
Para quem depende do verão para tirar o equipamento da garagem ou viaja o mundo à caça de ventos propícios para o kite, o Ceará está se firmando na mesma velocidade em que voam as pipas do kitesurf. Tanto que não é raro, entre os visitantes, grupos virem para passar dias e estenderem o passeio por três, quatro meses ou mesmo por tempo indeterminado. Aí se explica a presença de estrangeiros que, de visitantes, transformaram-se em donos de pousadas e instrutores do esporte - todos sendo levados por um vento que não parece passageiro.
Não é por acaso que os kitesurfitas ou kiters dos mais variados países estão com as atenções voltadas para o Ceará. As condições de vento e de temperatura do ar e da água tornam o Estado um paraíso para a prática do kitesurf.
Ao entrar no mar, a água morna é um convite para esquecer qualquer vestígio do frio europeu. Durante o ano todo, a temperatura da água varia de
Ventos trazem kitesurfitas ao Ceará
Para unir as condições favoráveis de temperatura e de vento à necessidade dos turistas, o downwind está se firmando como a melhor forma de praticar kitesurf e conhecer o litoral cearense.
Tudo é personalizado: da busca no aeroporto à escolha de pousadas, restaurantes e ao cuidado na verificação das condições de vento e maré, de acordo com a experiência do esportista. Quando o turista chega à praia, sua única preocupação é aproveitar cada momento para velejar.
O receptivo busca o grupo no Aeroporto Internacional Pinto Martins - de uma a quatro pessoas, a maioria europeus e norte-americanos - e leva direto para uma praia, que pode ser Cumbuco, Paracuru, Lagoinha ou Porto das Dunas. Mas o percurso entre Fortaleza e a primeira praia não é qualquer um. A viagem é feita em veículo 4x4 (Mistubishi L200, Land Rover ou semelhante).
A trilha sonora varia conforme o gosto do grupo. No caso dos pacotes organizados por Fred Brisemur e Daniel Caetano, a música segue no ritmo do público: é do mundo. Quase sempre instrumental, mas com incidências regionais que remetem à cultura de locais como Alemanha, França ou mesmo África. A proposta é iniciar o pacote já fazendo o kiter (esportistas) entrar no clima de descontração da viagem.
Entre uma praia e outra, os organizadores seguem no carro 4x4, acompanhando os velejadores, que descem o mar, aproveitando cada rajada e onda para fazer manobras e ter uma visão diferenciada da costa. “O serviço só é possível devido à constância de vento o ano inteiro”, ressalta Brisemur.
Quando os turistas chegam, está tudo programado: tábua de marés, velocidade dos
ventos, pousadas e o mar à espera das pipas para colorirem o céu. No mar, os visitantes até esquecem que precisam parar para fazer refeição ou reforçar a energia com uma fruta — banana não pode faltar. Se acontecer algum imprevisto, como algum equipamento quebrar ou precisar de reparo, Fred e Daniel têm no carro ferramentas, aparelhagem extra e kit de primeiros socorros.
Um pacote de cinco dias, por exemplo, com pernoites em Lagoinha, Mundaú, Icaraí de Amontada e Preá, custam R$ 5 mil para três pessoas, incluindo traslado terrestre, café da manhã nas pousadas e hospedagem (sem o aéreo).
Segundo explica Brisemur, muitos turistas nem esperam o dia amanhecer para entrar no mar. Outros, mais prudentes, mas não menos sedentos, esperam os primeiros sinais do dia para preparar o equipamento e seguir em direção à praia.
Aos turistas, só interessa saber se dá para fazer o downwind. “Vim pela primeira vez porque me falaram muito das condições de vento daqui. A última vez que velejei foi há oito meses, a uma hora do Sul de Roma. É totalmente diferente daqui. Se as condições não fossem tão boas, não gastaria tanto para passar só cinco dias aqui, velejando”, justifica o italiano Giovanni Bon Martini, que fez o pacote de downwind com dois amigos, os também italianos Marcelo Patrizi e Lorenzo Theodoli, que já haviam estado no Ceará, para velejar.
“Vou indicar a vários amigos americanos, franceses”, antecipa Lorenzo, enquanto Marcelo afirma que se encantou com o kite em uma lagoa perto da praia da Lagoinha. É que, enquanto os três velejavam e Fred e Daniel acompanhavam o percurso de carro, os turistas avistaram pipas na lagoa e quiseram conhecer o lugar.
Como no Ceará a temperatura varia muito pouco durante o ano, fica em torno de
Fora isso, a extensão de praias vazias ou ocupadas apenas por vilarejos torna o passeio mais personalizado. E é essa a idéia. Tanto que, ao final do passeio, cada kiter ganha cd com fotos e pequenos filmes de sua performance no mar.
Pousadas adaptadas no litoral
Ao longo das praias, é possível encontrar pousadas e restaurantes adaptados aos kiters. Guarderias expostas à beira da praia e quartos próprios para guardar os equipamentos são cada vez mais comuns no litoral. Um dos empreendimentos que passou por mudanças para atender ao novo público foi a pousada Pontal da Duna, em Lagoinha.
O proprietário é o angolano Francisco Salema, que está há 33 anos no Brasil. Ele já morou
Como sol e ventos favoráveis já são garantidos, a principal mudança foi a criação de um espaço para os visitantes guardarem pipas, pranchas, barras, trapézios e outros equipamentos. Além disso, ao chegar da praia, os velejadores podem lavar os equipamentos na pousada. “É o trabalho de férias: comer, dormir e preparar esse treco para velejar”, diverte-se, acrescentando que o baixo custo de bens e serviços no Estado também é outro atrativo. “Sem falar no acolhimento do povo”, diz o profissional de hotelaria com experiência em vários países e hotéis de grande porte.
Já na praia do Preá, uma opção de hospedagem é a Vila Preá, que tem chalés localizados à beira da praia, tão perto do mar que do quarto é possível dormir e acordar ouvindo o som das ondas. Mas se a intenção é fugir de qualquer tipo de urbanidade, uma opção é conhecer o inusitado “banheiro-jardim” privativo. No local é possível deitar ou tomar um banho ao ar livre, mas com privacidade. Apesar desses aspectos, a pousada tem internet ‘wi-fi’, restaurante, segurança 24 horas, serviço de lavanderia e aulas de kite, windsurf, aluguel e conserto de equipamentos.